Existe um assunto que a maioria das pessoas nunca associa ao câncer, mas que a ciência já documenta com clareza há anos: o sexo oral sem proteção é uma via real de transmissão do HPV e pode, sim, estar relacionado ao desenvolvimento de tumores malignos. Não é alarmismo. É informação que pode salvar vidas, e por isso precisa ser dita com toda a clareza que merece.
O que é o HPV e por que ele vai além da região genital
O HPV, Papilomavírus Humano, é o vírus sexualmente transmissível mais comum no mundo. Segundo o Instituto Nacional de Câncer, o INCA, estima-se que mais de 80% das pessoas sexualmente ativas entrarão em contato com algum tipo de HPV ao longo da vida. Existem mais de 200 tipos do vírus, sendo que alguns são considerados de baixo risco, associados a verrugas genitais, e outros de alto risco oncogênico, com potencial de provocar alterações celulares que evoluem para o câncer.
Quando falamos em HPV, a maioria das pessoas pensa imediatamente no câncer de colo do útero. E de fato, segundo a Organização Mundial da Saúde, a OMS, o HPV é responsável por praticamente 100% dos casos dessa neoplasia. Mas o que ainda é pouco discutido, inclusive nos consultórios, é que os tipos de alto risco do vírus, em especial o HPV 16 e o HPV 18, também infectam a mucosa da boca, da garganta e da orofaringe, e estão diretamente ligados ao desenvolvimento do câncer de orofaringe.
A relação entre sexo oral e câncer de orofaringe
O câncer de orofaringe inclui tumores que se desenvolvem na base da língua, nas tonsilas palatinas, no palato mole e na parede posterior da faringe. Durante décadas, esse tipo de câncer foi associado principalmente ao tabagismo e ao consumo excessivo de álcool. Esse cenário mudou de forma expressiva nas últimas décadas.
Uma pesquisa publicada no Journal of Clinical Oncology mostrou que o HPV, especialmente o tipo 16, tornou-se a principal causa de câncer de orofaringe nos países desenvolvidos, superando o tabaco em determinadas populações.
O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, o NCI, estima que cerca de 70% dos cânceres de orofaringe diagnosticados atualmente estão associados à infecção pelo HPV.
A via de transmissão do vírus para a região oral é, predominantemente, o contato sexual orogenital sem proteção, ou seja, o sexo oral. O vírus penetra na mucosa da boca e da garganta através de microlesões, podendo estabelecer infecção persistente que, em algumas pessoas, evolui silenciosamente para lesões precursoras e, posteriormente, para o câncer. Esse processo pode levar anos ou décadas, o que dificulta a associação e atrasa o diagnóstico.
Por que algumas pessoas desenvolvem a doença e outras não
Essa é uma pergunta legítima e importante. O contato com o HPV, por si só, não determina o desenvolvimento do câncer. A grande maioria das infecções pelo vírus é eliminada espontaneamente pelo sistema imunológico em até dois anos, sem deixar sequelas. O problema ocorre quando o sistema imunológico não consegue eliminar o vírus, e a infecção se torna persistente.
Fatores que aumentam o risco de infecção persistente e de progressão para o câncer incluem imunossupressão, tabagismo, consumo frequente de álcool, múltiplos parceiros sexuais e ausência de vacinação contra o HPV. A combinação de sexo oral sem proteção com esses fatores de risco eleva de forma significativa a vulnerabilidade ao desenvolvimento do câncer de orofaringe associado ao HPV, de acordo com publicação da American Cancer Society. [[immune system HPV infection persistence medical illustration]] Homens também são afetados e precisam saber disso, enquanto o câncer de colo do útero mobiliza campanhas de conscientização amplamente difundidas, o câncer de orofaringe associado ao HPV afeta homens e mulheres de forma equiparada e, em algumas estatísticas, acomete os homens com maior frequência.
Segundo o INCA, no Brasil, o câncer de boca e orofaringe é o quinto tipo mais frequente em homens. A falta de informação masculina sobre o HPV e suas complicações é um problema de saúde pública que precisa ser enfrentado com urgência.
A vacinação contra o HPV está disponível no calendário do Sistema Único de Saúde para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos, além de populações específicas até os 45 anos. No entanto, a vacina é mais eficaz quando aplicada antes do início da vida sexual, antes da exposição ao vírus. Para quem já iniciou a vida sexual, a vacinação ainda é recomendada, pois oferece proteção contra os tipos do vírus com os quais a pessoa ainda não teve contato.
O que fazer para se proteger
A proteção começa com informação. O uso de preservativo durante o sexo oral, embora não elimine completamente o risco de transmissão do HPV, reduz significativamente a exposição ao vírus. Barreiras de látex, também chamadas de dental dams, são recomendadas pelas principais sociedades de infectologia e ginecologia para a prática do sexo oral em vulvas e ânus. São dispositivos ainda pouco conhecidos no Brasil, mas com evidência sólida de proteção.
A vacinação contra o HPV é, até o momento, a medida preventiva mais eficaz disponível. A Organização Mundial da Saúde recomenda a vacinação universal contra o HPV como estratégia prioritária de saúde pública, com potencial de reduzir drasticamente a incidência de cânceres associados ao vírus nas próximas décadas.
O acompanhamento médico regular, que inclui avaliação ginecológica com colpocitologia oncótica, e a atenção a sinais e sintomas como lesões persistentes na boca, dificuldade para engolir, rouquidão prolongada ou aumento de linfonodos no pescoço, são fundamentais para o diagnóstico precoce.
Uma conversa que deveria acontecer muito antes
A sexualidade humana é diversa, e as práticas sexuais que as pessoas adotam fazem parte de sua vida íntima e de sua liberdade individual. Não existe julgamento neste espaço. O que existe é o compromisso com a informação de qualidade, porque só se protege quem sabe do que precisa se proteger.
O sexo oral é uma prática amplamente adotada e raramente associada a riscos sérios de saúde no imaginário popular.
Mudar essa percepção não significa proibir ou moralizar, significa instrumentalizar as pessoas com o conhecimento necessário para fazerem escolhas conscientes sobre a própria saúde.
Se você tem dúvidas sobre HPV, sobre vacinação, sobre como está a sua saúde ginecológica hoje ou sobre qualquer aspecto da sua saúde íntima, agende uma consulta na Clínica Ventria, em Volta Redonda.
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