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Existe uma condição que afeta entre 8% e 13% das mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde, e que durante décadas carregou um nome que, além de impreciso, contribuiu para que inúmeras mulheres recebessem diagnóstico tardio, tratamento inadequado ou simplesmente não fossem diagnosticadas.

Estamos falando da Síndrome do Ovário Policístico, a SOP, e da mudança histórica que especialistas internacionais estão defendendo com cada vez mais força: renomeá-la como Síndrome Ovariana Metabólica, a SOM.

Essa não é uma questão apenas semântica. É uma revisão profunda da forma como entendemos, diagnosticamos e tratamos essa condição. E entender o porquê dessa mudança pode transformar a relação de muitas mulheres com o próprio corpo e com a própria saúde.

Por que o nome atual é um problema
O termo Síndrome do Ovário Policístico foi cunhado em 1935, quando os médicos Irving Stein e Michael Leventhal descreveram pela primeira vez um conjunto de sintomas em mulheres que apresentavam ovários aumentados com múltiplos cistos. Desde então, o nome se consolidou na medicina e na cultura popular. O problema é que a ciência avançou muito desde 1935, e o que sabemos hoje sobre essa condição vai muito além dos ovários e dos cistos.

Primeiro ponto: nem toda mulher com SOP tem cistos nos ovários. Os chamados cistos, na verdade, são folículos imaturos que não chegaram à ovulação, e sua presença não é nem obrigatória nem suficiente para o diagnóstico, de acordo com os critérios de Rotterdam, que são os mais utilizados mundialmente. Segundo ponto: o ovário não é apenas coadjuvante nessa história, é protagonista de um desequilíbrio muito mais amplo, que envolve resistência à insulina, disfunção metabólica, inflamação crônica de baixo grau e desregulação hormonal sistêmica.

Uma revisão publicada no prestigiado periódico The Lancet Diabetes and Endocrinology em 2023, conduzida por pesquisadores de diversas universidades internacionais em parceria com pacientes e especialistas, concluiu que o nome Síndrome do Ovário Policístico é impreciso, estigmatizante e prejudicial, impreciso porque foca em uma característica morfológica que não define a condição.

Estigmatizante porque muitas mulheres, ao ouvir que têm cistos nos ovários, desenvolvem medo desnecessário de câncer ou de infertilidade irreversível. E prejudicial porque distorce a percepção do real mecanismo da doença.

O que a Síndrome Ovariana Metabólica revela que o nome antigo escondia

A proposta de renomear a condição como Síndrome Ovariana Metabólica não é um capricho acadêmico. É um reconhecimento de que o núcleo dessa síndrome é metabólico, não morfológico. A resistência à insulina está presente em até 70% das mulheres com esse diagnóstico, segundo dados publicados no Journal of Clinical Endocrinology and Metabolism, independentemente do peso corporal.

Isso significa que mulheres magras também podem ter resistência à insulina associada à síndrome, o que contribui para atrasos diagnósticos em pacientes que não se encaixam no estereótipo de quem vive com essa condição.

O hiperandrogenismo, ou seja, a elevação dos hormônios masculinos como a testosterona, é consequência direta desse desequilíbrio metabólico e explica grande parte dos sintomas mais impactantes para as mulheres: irregularidade menstrual, acne, queda de cabelo, excesso de pelos e dificuldade para emagrecer.

Quando se muda o foco para o componente metabólico, as estratégias de tratamento também se tornam mais abrangentes e mais eficazes, incluindo mudança de estilo de vida, manejo da resistência à insulina e abordagem hormonal integrada, em vez de esconder os sintomas sem tratar a causa raiz.

Quem está liderando essa mudança
A discussão sobre a renomeação ganhou força significativa com a publicação do estudo conduzido pela professora Helena Teede, da Monash University, na Austrália, uma das maiores referências mundiais em SOP. Em parceria com organizações como a Androgen Excess and PCOS Society e com grupos de pacientes de diversos países, o estudo envolveu mais de 3.000 participantes entre profissionais de saúde e mulheres com o diagnóstico, e concluiu que a preferência expressiva é por um nome que reflita a natureza metabólica da condição.

No Brasil, a FEBRASGO acompanha as discussões internacionais sobre o tema e reforça a importância de uma abordagem multidisciplinar no manejo dessa síndrome, que envolve ginecologia, endocrinologia, nutrição e saúde mental. A mudança de nomenclatura ainda não foi oficialmente adotada de forma universal, mas já está sendo amplamente discutida em congressos médicos e publicações científicas de alto impacto, e tende a se consolidar nos próximos anos.

O impacto dessa mudança na vida real das mulheres

Mais do que uma questão técnica da medicina, essa revisão tem consequências profundas para as mulheres que vivem com essa condição. Muitas chegam ao consultório após anos de diagnóstico errado, de tratamentos que não funcionaram ou de uma relação conflituosa com o próprio corpo por não entenderem o que está acontecendo por dentro.

Quando a síndrome é apresentada como uma condição metabólica, e não como um problema estrutural dos ovários, toda a narrativa muda. A mulher passa a entender que seu corpo não está quebrado, está em desequilíbrio, e que esse desequilíbrio pode ser manejado com a abordagem certa.

A resistência às mudanças de hábito, a dificuldade para perder peso e a irregularidade menstrual deixam de parecer fraqueza ou descuido pessoal e passam a ser compreendidas como manifestações de um processo fisiológico complexo que precisa de atenção médica especializada, não de julgamento.

O que muda na abordagem clínica

Reconhecer a síndrome como primariamente metabólica significa direcionar o tratamento para as suas causas, não apenas para os seus sintomas. Isso inclui avaliação da resistência à insulina com exames específicos, análise do perfil hormonal completo, investigação do estado inflamatório, manejo nutricional individualizado e, quando indicado, uso de medicamentos que atuem no metabolismo da glicose e na sensibilidade à insulina.

No consultório, quando recebo uma paciente com suspeita ou diagnóstico de SOP, minha abordagem já contempla essa visão ampliada, investigando o contexto metabólico de forma integral.

Não existe tratamento único que sirva para todas, porque cada mulher chega com um perfil clínico diferente, com sintomas que se manifestam de formas distintas e com uma história de vida que precisa ser considerada.

Se você tem diagnóstico de SOP, se convive com irregularidade menstrual, acne persistente, queda de cabelo, dificuldade para emagrecer ou qualquer outro sintoma que te faz desconfiar que algo não está equilibrado hormonalmente, agende uma consulta na Clínica Ventria, em Volta Redonda. Vamos conversar com profundidade sobre o que está acontecendo no seu corpo e construir juntas o melhor caminho para a sua saúde.